Ressonar pode parecer só um “mau hábito” ou motivo de brincadeira em família. Mas quando o barulho é frequente, intenso e dura anos, não estamos apenas a falar de ruído: pode estar em causa roncopatia, um distúrbio respiratório do sono que merece ser levado a sério.
A roncopatia não afeta apenas quem ressona. Rouba sono ao parceiro, fragmenta o descanso de ambos, aumenta o risco de sonolência diurna e pode ser sinal de problemas mais graves, como a apneia do sono.
Neste artigo vai entender, de forma clara, o que é a roncopatia, quais as principais causas, como é feito o diagnóstico e que tratamentos existem hoje para quem ressona, incluindo o papel da terapia do sono e de mudanças simples no estilo de vida.
O que é a roncopatia?
Roncopatia é o termo médico para o ato de ressonar de forma habitual. Em termos simples, é o ruído produzido durante o sono quando o ar passa por vias aéreas parcialmente estreitadas, fazendo vibrar estruturas como o palato mole e a úvula. Alguns pontos importantes:
- é muito frequente em adultos, sobretudo homens e pessoas acima do peso
- tende a agravar se com a idade
- pode ser ocasional ou crónica
- pode existir isoladamente (ronco primário) ou associada a outras doenças do sono
Nem toda a roncopatia é perigosa, mas o ressonar persistente é um dos sinais mais típicos da apneia do sono, uma perturbação em que a respiração pára repetidamente durante o sono.
Causas de roncopatia
A roncopatia é quase sempre resultado de uma combinação de fatores. De forma simplificada, tudo o que estreita as vias respiratórias ou relaxa em excesso os músculos da garganta aumenta a probabilidade de ressonar.
1. Fatores anatómicos
Algumas características físicas tornam o fluxo de ar mais difícil:
- desvio do septo nasal ou cornetos nasais aumentados
- rinite crónica ou rinossinusite com congestão constante
- amígdalas ou adenoides volumosas
- palato mole alongado ou úvula grande
- maxila ou mandíbula recuada, que “empurra” a língua para trás
Em crianças, a roncopatia está muitas vezes ligada a adenoides e amígdalas aumentadas, o que pode prejudicar o crescimento e o desempenho escolar se não for tratado.
2. Excesso de peso
A gordura acumulada à volta do pescoço estreita as vias respiratórias e facilita o colapso parcial da garganta durante o sono. Mesmo um aumento moderado de peso pode fazer a diferença na intensidade da roncopatia.
3. Estilo de vida e hábitos de sono
Alguns comportamentos favorecem o ressonar:
- consumo de álcool à noite, que relaxa em excesso os músculos da garganta
- uso de sedativos ou certos medicamentos que deprimem o sistema nervoso
- dormir de costas, posição em que a língua cai para trás com mais facilidade
- horários irregulares de sono e privação de descanso, que desregulam os ritmos circadianos
4. Doenças associadas
Entre as condições que aumentam o risco de roncopatia estão:
- apneia obstrutiva do sono
- rinite alérgica e outras doenças nasais crónicas
- alterações hormonais (por exemplo, menopausa)
- tabagismo, que irrita e inflama as vias respiratórias
Em muitos casos, mais do que uma destas causas está presente ao mesmo tempo.
Roncopatia simples ou apneia do sono: como perceber a diferença?
Uma dúvida frequente é: “Se ressono, tenho apneia do sono?”. A resposta é: nem sempre. Mas o contrário também é verdade: ignorar a roncopatia pode atrasar o diagnóstico de um problema importante. De forma geral:
- Roncopatia simples (ronco primário)
- ressonar sem pausas respiratórias visíveis
- sem sonolência diurna marcada
- sem quedas relevantes da oxigenação durante o sono
- Roncopatia associada a apneia do sono
- ressonar alto, muitas vezes interrompido por pausas respiratórias
- engasgamentos noturnos, sensação de “falta de ar” ao acordar
- sono agitado, despertares múltiplos
- sonolência intensa durante o dia, dificuldade em concentrar se
- dores de cabeça matinais, irritabilidade, queda de rendimento
Só um estudo de sono estruturado consegue distinguir com segurança roncopatia simples de apneia do sono. Por isso, ressonar de forma persistente, sobretudo se houver sonolência ou pausas respiratórias observadas, é motivo para avaliação em terapia do sono.
Sintomas da roncopatia
Para além do ruído em si, a roncopatia pode ter outras consequências, mesmo quando não existe apneia relevante:
- sono fragmentado, com sensação de descanso pouco reparador
- cansaço e redução de energia ao longo do dia
- dificuldade de concentração e lapsos de memória
- maior risco de acidentes por sonolência, sobretudo ao volante
- conflitos conjugais e vergonha do ruído ao dormir fora de casa
Quando a roncopatia está associada à apneia obstrutiva do sono, aumenta também o risco de hipertensão arterial, arritmias e outras doenças cardiovasculares.
Diagnóstico da roncopatia
O primeiro passo é assumir que ressonar de forma habitual não é “normal” nem obrigatório. A partir daí, o diagnóstico passa por etapas simples.
- Consulta clínica
O médico (habitualmente otorrinolaringologista, pneumologista ou especialista em sono) avalia:- há quanto tempo ressona e com que intensidade
- se há pausas respiratórias, engasgamentos ou movimentos bruscos
- se existe sonolência diurna, cefaleias matinais ou fadiga
- histórico de peso, doenças associadas e medicação
- Exame das vias respiratórias
São avaliados nariz, garganta, amígdalas, palato, língua e mandíbula para identificar potenciais zonas de estreitamento. - Estudos de sono
Quando há suspeita de apneia do sono ou quando a roncopatia é importante, pode ser pedida uma polissonografia ou outro estudo de sono:- regista respiração, oxigenação, batimentos cardíacos e estágios do sono
- permite distinguir roncopatia simples de apneia
- quantifica a gravidade do problema
Com base nestas informações é possível definir se se trata de roncopatia isolada ou de uma doença do sono mais complexa e, a partir daí, escolher o melhor tratamento.
Tratamento da roncopatia
O tratamento da roncopatia depende da causa e da gravidade. Em muitos casos, a combinação de mudanças de estilo de vida com medidas médicas específicas produz resultados muito satisfatórios.
1. Mudanças de estilo de vida e higiene do sono
São quase sempre a primeira linha de intervenção e fazem diferença mesmo quando é preciso tratamento adicional:
- perder peso, quando existe excesso de peso ou obesidade
- evitar álcool e sedativos nas horas que antecedem o deitar
- tentar dormir de lado, em vez de barriga para cima
- tratar alergias e congestão nasal com orientação médica
- manter horários regulares de sono e aplicar princípios de boa higiene do sono
Estas medidas, integradas em programas de estratégias de terapia do sono, ajudam a estabilizar o sono e reduzem o esforço respiratório noturno.
2. Dispositivos intraorais e CPAP
Quando as mudanças de estilo de vida não chegam ou quando há apneia associada, podem ser usados dispositivos específicos:
- dispositivos intraorais de avanço mandibular
- feitos à medida por profissionais experientes
- mantêm a mandíbula e a língua ligeiramente avançadas
- aumentam o espaço na via aérea e reduzem o ressonar e, em muitos casos, a apneia leve a moderada
- CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas)
- aparelho que envia um fluxo de ar com pressão controlada através de uma máscara
- mantém a garganta aberta durante o sono
- é considerado tratamento de referência para muitos casos de apneia obstrutiva do sono
A escolha entre dispositivo intraoral, CPAP ou outras opções é feita caso a caso, de acordo com o padrão de roncopatia, presença de apneia, anatomia e preferências da pessoa.
3. Cirurgia e outras intervenções
Em situações selecionadas, sobretudo quando há alterações anatómicas marcadas, podem ser consideradas:
- cirurgias nasais (correção de desvio do septo, redução de cornetos)
- cirurgia de amígdalas e adenoides, especialmente em crianças
- técnicas no palato mole (radiofrequência, laser, uvulopalatofaringoplastia), em casos bem escolhidos
Estas opções procuram alargar a via aérea ou reduzir a vibração dos tecidos que produzem o som do ressonar. A decisão deve ser sempre ponderada com equipas experientes em sono e via aérea superior.
4. Terapia do sono e acompanhamento continuado
A roncopatia não é apenas um problema mecânico. Muda rotinas, afeta a relação com o sono e gera ansiedade em muitas pessoas.
Um acompanhamento estruturado em terapia do sono pode incluir:
- educação sobre roncopatia, apneia e impacto do sono na saúde
- apoio na implementação de novas rotinas de sono
- trabalho sobre hábitos, motivação e adesão ao tratamento
- integração de outras áreas, como gestão de peso e stress
Ao articular avaliação médica, mudanças de comportamento e acompanhamento regular, aumenta muito a probabilidade de resultados duradouros.
Quando deve procurar ajuda se ressona
Ressonar de vez em quando, após um dia de maior cansaço ou uma noite de álcool, pode acontecer a qualquer pessoa. Mas é aconselhável marcar consulta em terapia do sono ou em especialidade adequada se:
- ressona na maioria das noites, há vários meses ou anos
- o ruído é alto o suficiente para incomodar quem dorme consigo
- alguém observa pausas respiratórias, engasgamentos ou “paragens” durante o sono
- sente sonolência intensa durante o dia, dores de cabeça matinais ou irritabilidade
- tem hipertensão ou outras doenças cardiovasculares e ressona de forma persistente
Quanto mais cedo for avaliada a roncopatia, mais facilmente se identifica se é um problema simples ou se está inserida num quadro mais amplo de doenças do sono e mais cedo se pode intervir.1
Conclusão
A roncopatia é muito comum, mas não por isso deve ser ignorada. Ressonar não é apenas um som incómodo: é um sinal de que o ar não está a passar como deveria pelas vias respiratórias durante o sono.
Em muitos casos, pequenas mudanças no estilo de vida e cuidados de sono são suficientes para reduzir o problema. Noutros, é necessário combinar medidas médicas, dispositivos específicos e um plano personalizado de acompanhamento.
Se sente que o seu ressonar está a afetar o seu descanso, o do seu parceiro ou a sua saúde, não se limite a “acostumar se”. Procurar ajuda especializada em terapia do sono é um passo decisivo para recuperar noites mais silenciosas, sono mais profundo e dias com mais energia.
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